Admirador da obra de Detetive policial de George Simenon, o escritor irlandês
John Banville decidiu se aventurar pelo gênero. Banville é um artista
inquieto - ex-crítico e subeditor do jornal Irish Times, sua meta sempre
foi a de escrever uma ficção tão densa quanto a poesia, o que resulta
em textos refinados, pontuados por expressões pouco usuais. No romance
noir, no entanto, Banville decidiu ser um artesão e, para isso, escolheu
um pseudônimo, Benjamin Black.
É sob essa alcunha que ele lançou três livros, dois já editados no
Brasil pela Rocco: O Pecado de Christine e, agora, O Cisne de Prata. Em
todos, desponta a figura do patologista Garret Quirke que, na Irlanda
dos anos 1950, descobre-se preso a uma intrincada teia de romances e
adultérios.
Banville, que vem para a Flip em julho, ganhou o Booker Prize de
2005, o maior prêmio literário inglês, pelo maravilhoso O Mar (Nova
Fronteira), em que utiliza os detalhes para mostrar como um homem
procura viver o presente e o futuro no passado. Influenciado pelo
realismo sofisticado do americano Henry James, o autor irlandês
habitualmente é associado a mestres da literatura moderna como Samuel
Beckett, James Joyce e Vladimir Nabokov.
Ele sempre rejeitou, porém, o rótulo de pós-moderno. Tampouco aceita a
noção de inspiração divina - para ele, escritores são pessoas normais,
talvez ligeiramente mais obcecadas, como mostra na seguinte entrevista,
concedida por e-mail.
Por que o senhor inventou Benjamin Black? O processo de Black é realmente tão diferente do processo de John Banville?
Há
cerca de dez anos, um amigo meu, o filósofo inglês John Gray,
recomendou que eu lesse os livros de George Simenon. Eu não tinha lido
nada de Simenon, achando que ele era apenas o inventor de Maigret. Mas
John destacou que o que Simenon chamava de "romans durs" ou Detetives policiais de
fundo psicológico, mereciam realmente atenção. Li Dirty Snow (A Neve
Estava Suja), numa nova edição da New York Review Books, e fiquei
surpreso com sua qualidade. Então, procurei todos os livros de Simenon
disponíveis em inglês e os li todos. George Simenon era um grande
escritor, e pelo menos uma meia dezena destes livros, como Monsieur
Monde Vanishes (A Fuga do Sr. Monde) e The Strangers in the House
(Estranhos em Casa), são obras-primas da ficção do século 20. Nessa
ocasião, eu havia escrito um policial para a televisão que nunca foi
produzido e decidi transformá-lo num romance à la Simenon. Foi assim que
nasceu Benjamin Black. Sim, os livros de Black são totalmente
diferentes e separados dos de Banville. O estilo é diferente, o conteúdo
é diferente, a aspiração é diferente. Os livros de Black são obras de
artesão, os de Banville são... algo mais.
De onde surgiu Quirke, seu herói?É impossível
dizer de onde saem meus personagens. Eu queria um protagonista que não
se parecesse comigo, dentro do possível, e Quirke com certeza é assim,
embora seja uma espécie de manifestação do meu Id, no sentido freudiano,
Por outro lado, eu não sou freudiano...
Existe uma profunda relação entre literatura e um romance de
suspense sobre psicanálise, no sentido de que sempre há, em ambos, uma
verdade escondida que deve ser revelada?
Nunca pensei nisso
antes. Como disse, não sou freudiano, mas certamente o gênero do romance
detetive policial permite ao escritor explorar - ou, para ser menos portentoso,
escrever sobre - o lado negro dos assuntos humanos e da personalidade
humana. Todo mundo tem um segredo - todo mundo -, embora alguns segredos
sejam mais negros e estejam mais profundamente ocultos do que outros.
Quirke, um homem com muitos segredos, tem uma compulsão para descobrir
os segredos dos outros. A curiosidade, eu acho, é que mais o estimula.
Leonardo Sciascia costumava dizer que o romance detetive policial é um
veículo para abordar problemas de identidade. O senhor concorda? Que
gênero de detetive policial o senhor gosta?
Gosto do trabalho de
Sciascia, mas não sei se ele está certo quanto à busca de identidade.
Busca da identidade de outros talvez. Os escritores de romances de
suspense que gosto são os que não se imaginam psicólogos. Raymond
Chandler, Dashiell Hammett, James M. Cain, Richard Stark são os que mais
admiro.
Muitos escritores acham que o romance, como visto hoje, mesmo
nas suas formas menos convencionais, deve muito à novela policial, que
sempre manteve a necessidade de categorias muito claras: personagens,
pesquisa, ação, conclusão. O senhor concorda?
Sim, é o que
penso. Veja, por exemplo, o trabalho de prosa de Beckett, com certeza na
sua fase intermediária. Beckett foi um aficionado dos romances noir
franceses e seu trabalho de ficção reflete isso. Molloy é sob muitos
aspectos uma história de detetive, até mesmo com uma reviravolta, uma
maravilhosa reviravolta, nas últimas sequências. E veja How It Is, um
dos seus textos mais severos, em que no fim descobrimos que o narrador,
que durante toda a história refere-se a diversos outros personagens, na
verdade está sozinho na lama. É um final tão surpreendente quanto
inóspito como numa ficção policial. E depois temos Dostoievski...
O senhor acha que os escritores têm uma obrigação moral para com seus personagens e seus leitores? Claro
que não. A única obrigação que o escritor tem é de se esforçar para
escrever obras-primas. O artista é amoral e tem de ser assim. Por outro
lado, o trabalho artístico é um objeto moral, pela simples razão de que
ele representa o melhor que o artista pode realizar. E naturalmente é
inteiramente honesto - uma obra de arte desonesta é impossível.
Qual a função da violência na sua obra?Na
realidade existe muito pouca violência nos meus livros de Benjamin
Black. Na verdade, suspeito que há mais violência nos romances de
Banville. Veja, por exemplo, O Livro das Provas. O aspecto mais
desalentador na ficção noir é que no romance policial tem de haver um
crime. Essa é uma limitação que considero frustrante. Tenho a ambição de
escrever um romance que não envolva um crime. Cheguei perto disso em
Elegy for April, em que não existe nenhum cadáver e a suposta vítima no
centro da história pode não estar morta, de maneira nenhuma.
O senhor se vê como um escritor político ou acha que os escritores são criaturas necessariamente políticas?Certamente
não. Você não pode misturar política e arte. Se tentar, ou a arte é
prejudicada ou a política é ruim. E mesmo que considere que a ficção detetive
policial não é arte - como disse antes, veja meus livros de Benjamin
Black como obra de artesão -, não acho possível um escritor de ficção detetive
policial ser conscientemente político. Os romances dos anos 1970, de
Wahloo e Sjowall, por exemplo, podiam ser excelentes, mas são fatalmente
imperfeitos por causa da determinação dos autores de serem "relevantes"
para a política da sua época. Imagine um romancista na virada do século
passado procurando comentar a Guerra dos Bôeres - quem leria os seus
livros hoje? Pense no livro de Norman Mailer, Why Are We in Vietnam? Até
o título é um desastre.
O que o senhor acha: o livro-objeto é realmente perfeito? Que
complementos vê entre o livro clássico e a oportunidade oferecida pela
mídia digital como nova maneira de leitura?
O livro é uma
das maiores invenções da humanidade, um objeto que é prático e também
belo. Não consigo ler livros usando a nova tecnologia - preciso ter o
objeto físico em minhas mãos, portanto, não estou habilitado para
comentar a respeito. O aparelho Kindle me parece algo inteiramente sem
alma. Mas talvez eu esteja muito velho e profundamente arraigado aos
meus hábitos.
O jornalismo narrativo americano é muito similar à ficção nos
livros e se inspira no arco narrativo clássico. O senhor acha que ainda
existe lugar para a narrativa deliberadamente literária? Que caminhos
deverá seguir ou mudar no caso do jornalismo?
Muitos
romances sem muita pretensão são jornalísticos nos seus métodos e muitos
jornalistas medianos usam a ficção como modelo. Acho que existem menos
bons jornalistas do que bons romancistas - mas então bons romancistas
não interessam muito, não é? Quase todo mundo consegue escrever um bom
romance, se colocar muito empenho nesse trabalho. Mas poucos, muito
poucos escritores conseguem produzir um bom romance, e quase nenhum
consegue realizar uma obra-prima.
www.elementardetetives.com.br
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