A fila saía da livraria e dobrava a esquina, enquanto carros
aguardavam vaga no estacionamento. O sucesso do lançamento de um livro
de Martha Medeiros no Rio fez o escritor Tony Bellotto refletir: qual
história pode agradar mais leitores? Aquelas que tratam de adultério,
pensou. Mas, não uma tradicional, envolvendo homens, mas com mulheres
adúlteras. Surgia, assim, a ideia que se tornaria no romance "Machu
Picchu" (Companhia das Letras, 120 págs., R$ 32), que o guitarrista dos
Titãs lança nesta quarta-feira, na Livraria Cultura do Conjunto
Nacional, evento que começa às 19 horas, quando ele conversa sobre o
livro e cultura pop com outro escritor, Reinaldo Moraes - uma hora
depois, haverá sessão de autógrafos.
"Eu queria falar sobre a família", justifica Bellotto, autor de
outras sete obras, a maioria narrando as aventuras policiais do detetive
Bellini. "Pretendia também usar da ironia, do sarcasmo, algo como Billy
Wilder fazia em suas comédias." Há, de fato, uma pitada de cada gênero
no romance, que se assemelha à concepção de um filme: a partir de cenas
intercaladas, o leitor conhece a história de Zé Roberto e Chica, casal
que, naquele dia, vai comemorar dezoito anos de casamento.
Ambos estão presos a um monstruoso engarrafamento no Rio, o maior da
história da cidade. Ele, num táxi; ela, em seu carro. Sem ter o que
fazer, aproveitam para pensar nos últimos meses da relação. A situação
não é boa - enquanto Chica mantém um caso com Helinho, colega de
trabalho, Zé Roberto inicia um relacionamento virtual com uma garota que
conheceu no Facebook, conhecida por W19. Completam a família um filho
maconheiro, uma ex-mulher psicótica, uma filha ausente e uma misteriosa
afilhada.
"Quando comecei a escrever, Chica era a narradora, mas Zé Roberto
começou a se intrometer, talvez num impulso machista", diverte-se
Bellotto. "Decidi, então, trabalhar separadamente as histórias de cada
um para depois cruzá-las." Ali foi o momento mais delicado, mas também
prazeroso, pois Bellotto viu-se obrigado a descobrir os momentos de
corte de uma narrativa para outra. Com isso, passou a exercitar um
método de escrita que lhe é peculiar - o policial.
É o que se observam nos momentos de tensão gerados tanto pela
aproximação de um desconhecido ao carro de Chica como no de uma cigana
ao táxi de Zé Roberto: Detetive Bellotto descreve detalhes, escassos, mas
intrigantes, honrando o aprendizado que teve com a leitura de autores
clássicos como Agatha Christie e Dennis Lehane, especialmente na forma
com que eles tratavam de personagens infantis. "A criança, às vezes, é
maldosa", comenta Bellotto, justificando as atitudes de um de seus
protagonistas.
Outro delicioso desafio foi promover uma batalha entre os sexos,
especialmente em relação ao comportamento. Com isso, Bellotto revela-se
antenado com os novos tempos, ao mostrar o sexo virtual como uma
alternativa de prazer cultivada mais pelos homens, enquanto as mulheres
optam ainda por relações carnais. "Busquei, no entanto, mostrar uma nova
faceta das relações modernas, pois o homem não ostenta sozinho a
posição de único traidor - ele também passa a ser o traído."
Outro detalhe importante é a explicação para o título do livro.
Congestionamento era o pensado por Bellotto, mas a imagem dos carros
parados, abandonados, que sua mente criou naquele momento em que
esperava por um autógrafo de Martha Medeiros foi mais forte. Para mais
detalhes, convém ler o livro até o final, pois é nas últimas linhas que
surge a explicação. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
www.elementardetetives.com.br
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