quarta-feira, 10 de abril de 2013

Detetive Especialista, verdade sobre Espinosa

Detetive Especialista, verdade sobre:

Espinosa

O delegado Espinosa, um homem de meia idade, magro e de fala mansa, é o detetive mais proeminente da literatura policial brasileira. Natural do Rio de Janeiro, sua escola é a das praças e bares da capital fluminense, um ambiente valorizado por Luiz Alfredo Garcia-Roza, autor de oito livros sobre o personagem.
Filósofo do crime, Espinosa nasce para a literatura em 1996, nas páginas do romance “O Silêncio da Chuva”. Neste livro, é ainda inspetor da 1º Delegacia de Polícia do Rio de Janeiro, um lugar onde o trânsito de ocorrências se restringe a bêbados, punguistas e prostitutas da região do porto. Pouco tempo depois, consegue transferência como delegado para a 12ª DP, em Copacabana, onde inicialmente ocupa uma sala decorada com mobiliário antigo e até uma resistente máquina de escrever, aparelho que seria substituído posteriormente pelo computador e pelas ondas da internet. Em meio a ofícios, processos e assassinatos, ele transita pelo velho sobrado de dois andares, distante apenas duas quadras da famosa praia carioca. A localização é, no mínimo, refrescante.
Espinosa foi casado uma vez. Da união de quatro anos nasceu seu único filho, Julio, que foi morar com a mãe no exterior. Por não ter parentes próximos, o delegado leva uma existência solitária em seu modesto apartamento, no Peixoto, confortando-se em meio a pilhas de livros, comida congelada e uma vista tranquila da praça do bairro. Espinosa praticamente congestiona o espaço físico de seu apartamento com livros, abastecendo os cômodos do apartamento com edições de Joseph Conrad, Ernest Hemingway e Herman Melville, um de seus autores favoritos. Já que um de seus exercícios mais assíduos é postergar a aquisição de uma estante nova, ele enfileira as conquistas literárias rente às paredes, ao pé da cama e sob mesas e cadeiras, formando o que chama de “estante em estado puro”. Suas peregrinações aos sebos e livrarias da cidade acontecem regularmente, em meio a caminhadas à beira-mar, momento em que organiza as ideias perdidas.
O delegado não é propriamente um conquistador, mas tem sua parcela de charme. Costuma dizer que, após anos vivendo sozinho, não consegue mais perceber o código que fundamenta aproximações de natureza amorosa. Seu interesse é pelas mulheres bem resolvidas, de personalidade forte e, evidentemente, atraentes. Encontra estes atributos em Irene, um caso amoroso que floresce em “Vento Sudoeste”, de 1999, e se estende por anos.
O perfil de Espinosa é singular. Garcia-Roza o imaginou um homem viciado em café (levemente adocicado), simpatizante de um choppinho diário e praticante de hábitos alimentares pouco elogiáveis. Ele não tem o mínimo interesse pelas artes culinárias, e até considera seu fogão um aparato pré-histórico. Na hora da fome, abusa de sanduíches, pizzas, hambúrgueres, milk shakes ou escolhe um dos congelados na geladeira, como almôndegas com espaguete e lasanha à bolonhesa. Na padaria, opta pelos alimentos passíveis às variadas “combinações na cozinha” e que, de preferência, produzam o menor acúmulo de louça suja na pia. Presuntos defumados, queijos e pães de forma são seus preferidos. Sem esquecer do vinho tinto ou da cerveja bem gelada, é claro.
Já o profissional Espinosa é um delegado incorruptível, mas pouco crente em uma conduta ética de excelência no que tange a categoria. Seus trajes, assim como o linguajar tranquilo, o discernem dos colegas de profissão. Ele nunca usa tênis ou coletes de couro no ambiente de trabalho; prefere paletós de linho, confortavelmente ajustáveis ao acessório de tiracolo, o revólver. No processo de uma investigação, adota hábitos peculiares. Durante as caminhadas quase meditativas, a postura é sempre a mesma: ombros levemente curvados, olhar fixo ao chão, mãos nos bolsos da calça. Alheio à figura do detetive cerebral, deixa a imaginação fluir frente a casos obscuros, elaborando fantasias sobre possíveis causas e diferentes formas de execução que um homicídio pode comportar. No fim, por elaboração ou puro golpe de sorte, geralmente atinge um desfecho satisfatório, embora nem sempre preencha a totalidade de lacunas criadas por um crime.
Esta é uma característica de Espinosa. Ele não se comporta como um herói inatingível, paladino da lei e da ordem. Apesar do elemento mistério ser corrente, os crimes com os quais lida não revelam particularidades fantásticas. O diferencial de suas tramas mora na exploração da psicologia dos personagens. Envolvem gente relativamente comum, que interage sob circunstâncias sóbrias e tangíveis. O delegado nem sempre trilha o caminho certo, e não são raras as vezes em que detalhes não são revelados, compondo o que o autor chama de “zonas escuras” de mistério inseridas no enredo. Nas páginas da vida de Espinosa, a arte imita a realidade, sem êxitos nem rodeios.
Em um intervalo médio de dois anos, Garcia-Roza costuma presentear o leitor com um novo livro de Espinosa. Até hoje, foram mais de mil e oitocentas páginas de intrigas envolvendo o detetive. Seja o mocinho da vez ou a figura moderna do antiherói, o fato é que sua popularidade cresce livro após livro. O tempo vem agindo a seu favor, consolidando a marca de um personagem que atrai, cada vez mais, o interesse dos fãs da literatura de suspense no país.


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